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Lar de Eunice

  • Foto do escritor: Vicente Loureiro
    Vicente Loureiro
  • há 4 dias
  • 2 min de leitura
Casa antiga de dois andares com faichada escrito Lar de Eunice e com marcas  de enchente
Foto - Iguassu Online

Não se trata apenas de duas casas cujas fachadas trazem, na parte superior, escrito “ser um lar” no caso, de Eunices. Talvez fosse mais justo chamá-los de lares das Dores, pois ambos, separados por três ou quatro quilômetros de distância, convivem com as recorrentes cheias de verão do mesmo rio, o Botas, que atravessa na diagonal a cidade de Nova Iguaçu.


Na verdade, tal proximidade torna as duas habitações uma espécie de “inquilinas” dos infortúnios causados pelas mais que previsíveis enchentes do mesmo rio, impondo-lhes, todos os anos, uma temporada de dezembro a março de sobressaltos e desenganos. Só mudam mesmo os prefeitos e as dimensões dos estragos causados. Os transtornos e as tentativas de mitigação se repetem quase como a sina de Sófocles.


Invariavelmente, com a chegada da estação das chuvas, as mobílias das casas das Eunices ganham pés de tijolos, e passarelas de madeira improvisadas determinam uma circulação minimalista no interior e um acesso “seguro” até o portão. Este é o preço que se paga para conviver com inundações, nem sempre provocadas apenas por construções à beira dos rios. Afinal, cidades e rios parecem ter nascido um para o outro.


Difícil é precificar as noites de sono perdidas vendo a chuva cair e a água do rio subir. Ora rezando, ora torcendo para que ela não viole a soleira, mas sempre de olho nos ralos, de função regurgitante nessas ocasiões. A fé, independentemente da confissão religiosa, pode até remover montanhas, mas tem tido dificuldades de conter as águas por aqui.


As Eunices dos dois lares, apesar de terem adotado atitudes comuns para conviver com as impedâncias das cheias do Botas, sonham com futuros distintos. A de mais posses deseja conseguir vender a casa para viver em um apartamento na parte mais alta da cidade. A mais desassistida pretende tornar novamente habitável o pavimento térreo da casa, levantando, para isso, o piso em cerca de 70 centímetros, deixando a parte superior para abrigar a filha e os netos, filhos de três “abortos paternos” distintos.


rua com casas simples com enchente
Foto - Iguassu online

Enquanto as obras de drenagem e o futuro não chegam, as duas Eunices, de modo pragmático, decidiram transformar o térreo de suas casas em áreas de lazer improvisadas. Churrasqueiras, cadeiras de praia, redes, entre outros apetrechos portáteis, substituíram sofás, fogões e guarda-vestidos. A certeza da demora da solução desejada fez com que uma delas construísse um alçapão, onde uma engenhoca criativa faz subir e descer uma televisão de generosas polegadas. Sem dúvida, uma obra de adaptação às mudanças climáticas.


O que mais toca ao visitar um dos lares de Eunice é constatar que, apesar dos renitentes estragos trazidos pelo transbordamento do rio, ele resiste íntegro e altivo, parecendo espelhar a resiliência inabalável de seus moradores e uma esperança, banhada em lágrimas, que ainda acredita que dias melhores virão.



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